Todos sabem que carreira de jogador de futebol é curta. Não à toa, muitos se preparam para a aposentadoria ao longo da carreira e fazem bons investimentos em diversos setores, garantindo o pé de meia para depois que a bola parar de rolar.

É o caso de Davi Rodrigues de Jesus, de 34 anos.

Com passagem pelo São Paulo no início da carreira e bons anos em CoritibaAvaí e Paraná, o meio-campista atualmente está desempregado. Mas se engana quem acha que ele está parado sem fazer nada…

“Saí do São Caetano no fim do ano passado e atualmente estou sem clube. Estou analisando algumas propostas, Quero ter uma sequência legal para, no futuro, encerrar bem a carreira. Enquanto isso, vou cuidando das minhas coisas”, disse, à ESPN, antes de apresentar seus projetos.

“Eu tenho imóveis nos Estados Unidos e estou também com um rent a car em Orlando, que entrega carros em Miami e Fort Lauderdale também”, contou, citando as cidades da Flórida que são visitadas por enxames de brasileiros todo ano.

Davi entrou no negócio graças a um amigo de longa data e não se arrepende. Pelo contrário: hoje faz muito sucesso alugando automóveis aos boleiros que viajam aos EUA para conhecer os parques temáticos de Orlando.

“Surgiu essa chance de investir e a empresa vai completar dois anos agora. É bem bacana, vários jogadores de futebol alugam com a gente quando vão para a Disney“, relata.

“Temos 22 carros. A maioria costuma pegar vans ou SUVs que cabem até umas oito pessoas, para transportar a família toda. Para os que não têm filhos e vão só com as esposas, tem o Mustang, que é conversível. Eles adoram (risos)! Chama muito a atenção”, brinca.

O meia supervisiona a empreitada do Brasil, mas visita os Estados Unidos com frequência para dar uma força por lá.

“Vou uma duas vezes por ano e passo alguns dias ajudando no que puder. Passei o Réveillon na entrega de carro, acredita (risos)? É bacana, porque quem vai pra lá não tem vontade de voltar. É outra vida, mais tranquila, sem violência. No Brasil as coisas andam muito perigosas”, lamenta.

Além dos carros, Davi ainda tem uma casa de aluguel próxima à Disney.

INÍCIO E PASSAGEM PELO SÃO PAULO

Nascido em Gravataí-RS, Davi começou a carreira no Paulista de Jundiaí-SP, em 1999. Subiu para o profissional em 2002 e, em 2005, se destacou ao fazer um gol contra o Juventude, pela Copa do Brasil – torneio que terminaria com a surpreendente equipe do interior paulista como campeã.

No mesmo ano, não renovou com o Paulista e chamou a atenção do São Paulo, que o levou para fazer parte de um dos maiores times da história do Morumbi.

“Cheguei lá muito novo. Havia muitos jogadores de qualidade, e, por isso, acabei não tendo muitas chances”, lembrou.

“Fui contratado em abril. O time tinha vencido o Paulistão e eu já não podia mais ser inscrito na Libertadores, mas comemorei o título no Morumbi. Joguei algumas partidas do Brasileiro, porque o time estava dividido em duas competições. Mas só de estar no São Paulo já era um sonho. Lembro bem do meu primeiro jogo no Morumbi, contra o Botafogo. Conheci vários craques, que estavam no auge da carreira, mas que mesmo já tendo ganho tudo na vida sempre me trataram muito bem”, conta.

“Eu sentava para almoçar e via Rogério Ceni, Amoroso, Luizão, Júnior, Diego Tardelli, Lugano ao meu lado! Só de ver essas feras já valia a pena estar lá. Na final da Libertadores, lembro que fui com o ônibus da delegação do CT até o Morumbi e estavam todas as ruas e avenidas travadas. Demoramos meia hora só para conseguir passar pela torcida perto do estádio. Estava todo mundo louco, não paravam de gritar (risos)”, relembra, saudoso.

Davi é só elogios ao ex-colega Rogério Ceni e agradece até hoje pelos conselhos que recebeu do ídolo tricolor.

“Eu falava muito com o Ceni, e ele me dava muitos conselhos. Eu era jovem, estava iniciando a carreira, e foi maravilhoso aprender as coisas com um cara tão inteligente, de uma humildade enorme. Guardo tudo o que ele me falou até hoje. Ele sempre dizia que o futebol não era para sempre, e que precisava ter a cabeça no lugar para guardar um dinheiro e não ter problemas no futuro”, revelou.

CAUSO HILÁRIO NO JAPÃO

Sem espaço no Tricolor, Davi foi emprestado ao Bragantino em 2006 para disputar o Paulistão. Após o Estadual, foi para o Ceará, mas um triste episódio quase fez com que ele encerrasse a carreira ainda jovem.

“Tive uma lesão muito grave, e pensei seriamente em parar de jogar futebol no meio de 2006. Voltei para casa e fiquei quatro meses sem clube. Felizmente, depois consegui me recuperar e dar seguimento à carreira. Fui para o Iraty-PR me recuperar e treinar, aí consegui voltar a atuar em alto nível”, relatou.

Em 2007, atuou pelo São Bento no Paulistão, e, na sequência do ano, voltou ao Bragantino e conquistou a Série C pelo Massa Bruta. Acabou chamando a atenção do Albirex Niigata, do Japão, que o levou na virada do ano.

Na Terra do Sol Nascente, porém, pagou um mico daqueles e teve que voltar ao Brasil.

“Peguei um treinador japonês, mas que era casado com uma brasileira e sabia falar português. Só que eu não sabia (risos). Um dia ele me tirou do jogo e eu o xinguei em português, achando que ele não ia entender, mas ele entendeu tudo (risos). Acabei tendo problemas com ele e fui embora depois”, contou.

MELHOR FASE DA CARREIRA E IDA PARA A CHINA

Ao retornar ao Brasil, o meia acertou com o Avaí, mas acabou emprestado ao Paraná. Jogou bem, fazendo oito gols em 32 partidas, e foi incorporado pelo “Leão” catarinense em 2010. Disputou mais uma boa temporada e se transferiu para o Coritiba no ano seguinte.

No Couto Pereira, Davi formou parte do forte time montado pelo técnico Marcelo Oliveira. Ao lado de jogadores como Rafinha, Willian Farias, Léo Gago, Anderson Aquino e Bill, ajudou a conduzir o Coxa à final da Copa do Brasil, mas acabou sendo vice-campeão.

“Infelizmente perdemos para o Vasco, que tinha um time muito bom. Até fiz um gol no segundo jogo da final, que ganhamos de 3 a 2, mas não deu pra ganhar o título. O momento mais marcante da campanha acabou sendo o jogo contra o Palmeiras, em que ganhamos de 6 a 0 e o Marcão goleiro ficou revoltado no final, coitado (risos). Eu fiz o 2º gol dos seis”, exaltou.

Segundo o atleta, o próprio Vasco se interessou em levá-lo para São Januário depois da Copa do Brasil, mas ele não chegou a um acerto e acabou se transferindo depois para o Guangzhou R&F, da China.

Hoje, a equipe é uma potência na Ásia, mas nessa época as coisas eram muito diferentes.

“O começo lá foi bem difícil. Era totalmente diferente do Japão, onde tudo sempre foi organizado. Tive vários problemas com idioma e comida, comprei muita coisa errada (risos). Mas depois fui acostumando”, lembrou, aos risos.

“Quando cheguei lá, as coisas não eram tão profissionais. Pra você ter ideia, acabavam os jogos e os chineses fumavam no vestiário. Ganhando ou perdendo, não estavam nem aí. Hoje está tudo diferente, evoluiu bastante”, salientou.

“E eram os próprios atletas que tinham que lavar os uniformes e as chuteiras. Nem rouparia tinham nos clubes. Você tinha que levar tudo pra casa, lavar, secar e levar no dia seguinte. Se não fizesse isso, não tinha uniforme limpo pra treinar. Quando cheguei, me deram uma mala enorme cheia de coisas da Nike, com tênis, calças, chuteiras, bermudas, camisas, etc. Aí precisava cuidar disso o ano todo, que era o material pra treinar e jogar”, relatou.

Os apuros que passou com comidas hoje divertem o meia.

“Eu várias vezes comi umas carnes estranhas lá. Nem perguntava o que era, preferia não saber (risos). Tem carne de cachorro lá, essas coisa. Melhor não saber mesmo (risos)”, gargalhou.

“Teve outra vez que fui à Pizza Hute pedi uma massa. A moça perguntou se podia adicionar alguma coisa. Eu, obviamente, não entendi, mas falei que podia. Só que era uma pimenta daquelas bravas. Não consegui comer nada (risos)”, divertiu-se.

Desses tempos, o que Davi mais guardou com carinho foi a amizade que fez com o técnico Sven-Goran Eriksson.

“Trabalhei dois anos e meio com ele. Foi o melhor treinador que tive na vida. Cara simpático, bacana, educado e muito atencioso com todos. É diferenciado. Todo lugar que a gente ia todos o conheciam e queriam parar para tirar foto. Tudo o que ele conquistou na vida é merecimento, pelo cara espetacular que ele é”, elogiou.

“A gente conversava bastante. Uma vez ele me contou que comandava a Roma e eles ganharam por 3 a 0 do Napoli. Na saída do jogo, o Maradona, que estava jogando no Napoli, tocou no ombro dele e falou: ‘Quando forem lá em Nápoles, te garanto que vai ser no mínimo 5 a 0 pra gente’. Não deu outra, o Maradona fez três e o Napoli meteu 5 a 0 (risos)”, finalizou.

Fonte: ESPN