Sentaram-se os três em volta da mesa para discutir o futuro do Mogi Mirim. Alguma coisa precisava ser feita: o time flertava com o rebaixamento no Paulistão e, por isso, se viu obrigado a dispensar o treinador. Wilson de Barros, o presidente, e Henrique Storti, gerente de futebol, haviam papeado previamente e concordado quanto ao substituto no comando da equipe: Oswaldo Alvarez, o preparador físico que encontrava-se bem ali, na frente dos dois. Mas a ideia não apetecia Vadão.

Meio-campista de canhota enjoada, Oswaldo tinha lá seu valor com a chuteira nos pés. Diziam que seria promissor, embora a carreira tivesse sido restrita basicamente a clubes do interior de São Paulo – conveniente para quem nasceu em Monte Azul Paulista, distante 400 quilômetros da capital. Começou na base do Guarani em 1974 e vestiu, por exemplo, as camisas de Catanduvense, Noroeste e Botafogo de Ribeirão Preto.

Parou cedo, aos 28 anos. Mais por prudência do que por qualquer outra coisa. É que o pai, comerciante, tomou as rédeas da família para si depois que a mãe se foi quando Vadão ainda era adolescente. De modo que eles jamais sofreram necessidade, “mas também não tinham dinheiro sobrando”, como prefere recordar. Tirou proveito dos anos em que defendeu o Itapetininga, portanto, para prestar vestibular e lograr o primeiro lugar em Educação Física.

A graduação quase que coincidiu com o nascimento do primeiro filho da união com a esposa Ana, fiel companheira. A chegada do pequeno Adriano apertou as contas do casal, e a vida de jogador de futebol e seus contratos enxutos passou a trazer mais riscos que benefícios. Foi então que ele pendurou as chuteiras a fim de tornar-se preparador físico. Algo mais estável e atraente para Vadão, agora pai de família.

– Tomei minha decisão, mas foi muito difícil. Passei cinco, seis meses sonhando, acordava de madrugada suando, parecia que eu estava jogando. Porque o futebol é um sonho, uma grande fantasia – filosofa ele hoje em dia, bastante ciente de que, àquela altura, a fantasia estava por começar.

Com passagem pelo Guarani, Oswaldo pendurou as chuteiras aos 28 anos e depois virou preparador físico — Foto: Arquivo pessoal Com passagem pelo Guarani, Oswaldo pendurou as chuteiras aos 28 anos e depois virou preparador físico — Foto: Arquivo pessoal

Com passagem pelo Guarani, Oswaldo pendurou as chuteiras aos 28 anos e depois virou preparador físico — Foto: Arquivo pessoal

A convite de Pedro Pires Toledo, amigo dos tempos de Guarani, foi parar na Portuguesa. A princípio, como auxiliar; em seguida, preparador físico número um do clube. E dois anos se passaram dessa maneira: a esposa e o filho em Monte Azul, e Vadão na capital, visitando-os sempre que possível. Até acertar com o Mogi Mirim e levá-los, enfim, para morar consigo.

No Sapo, em pouco tempo, demonstrou o empenho de quem acabara de começar e, sobretudo, preservou excelente relação com todos. O que nos leva de volta ao encontro cujo objetivo era traçar os rumos do clube no Paulistão de 1991…

Vadão reunia todos os motivos para não querer ser treinador, desejo do presidente do qual ficou sabendo através do amigo Henrique Storti. Tímido, não se via de jeito algum no comando de uma equipe. E, além disso, apossava-se dos pensamentos dele a preocupação em como retornar à estabilidade da vida de preparador físico caso as coisas não dessem certo como técnico. Não, ele estava convicto de que não aceitaria, apesar da insistência do gerente de futebol e amigo.

– Pois então – introduziu o presidente Wilson de Barros na reunião. – Queremos que você seja nosso treinador. O que você acha?

– Não – respondeu Vadão de imediato.

E ele organizava os pensamentos para explicar suas razões quando, embaixo da mesa, o chute de Henrique Storti o acertou em cheio na canela. Sob influência da dor palpitante que agora fazia a perna latejar, corrigiu-se a tempo:

– Ok, eu aceito.

Vadão comandará a seleção feminina na Copa do Mundo — Foto: Lucas Figueiredo-CBF Vadão comandará a seleção feminina na Copa do Mundo — Foto: Lucas Figueiredo-CBF

Vadão comandará a seleção feminina na Copa do Mundo — Foto: Lucas Figueiredo-CBF

O Carrossel Caipira e o abandono da timidez

Existem duas formas de enxergar a história anteriormente contada: sob a ótica de Henrique, que se diverte toda vez que recorda o episódio (“ele deve ter ficado anos com aquela marca na canela”); e sob a de Vadão, esta um pouco mais dramática (“eles praticamente me forçaram a se treinador”). Fato é que as coisas dali em diante tomaram um rumo diferente – e um tanto quanto inesperado.

Com seus 30 anos de idade mal completados, e amparado por uma diretoria que desejava apagar as campanhas pífias da temporada anterior, Vadão foi ousado. Pegou o elenco do Mogi Mirim formado por jovens em sua maioria e o encaixou num 3-5-2, uma afronta à opinião pública que tanto passou a condenar o sistema depois do fracasso da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1990.

O Mogi Mirim de 92 tinha Leto, Válber, Capone, Luís Carlos, todos eles jogadores caracterizados pela versatilidade. E tinha com a camisa 10 um Rivaldo que, aos 19 anos, desabrochava para o futebol.

– Eles se adaptavam a qualquer posição, mas acho que nem eles sabiam disso – conta Vadão, dando ideia do trabalho que teve para convencê-los de que a estratégia funcionaria.

Inspirado no Carrossel Holandês, Vadão incentivou a garotada a promover a rotatividade dentro de campo, de modo que os adversários não sabiam a quem marcar. Algum ser humano num lapso de brilhantismo batizou a equipe de Carrossel Caipira. Ainda hoje, quase 30 anos depois, no entanto, ninguém sabe quem.

Vadão iniciou carreira de técnico no Mogi Mirim — Foto: Rafael Ribeiro/CBF Vadão iniciou carreira de técnico no Mogi Mirim — Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Vadão iniciou carreira de técnico no Mogi Mirim — Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Dessa forma, o Mogi Mirim de Vadão conquistou a Copa 90 Anos de Futebol, torneio organizado pela Federação Paulista e disputado entre as melhores equipes do interior – venceu nove das 11 partidas. No Paulista (naquele ano jogado no segundo semestre), a equipe encerrou a primeira fase na liderança do Grupo B, mas caiu nos quadrangulares finais.

No ano seguinte, perdeu a final do Torneio João Havelange para o Vasco, nos pênaltis; mas logo em seguida ficou com o título do Torneio Ricardo Teixeira, derrotando o Bangu na decisão.

Os cerca de quatro anos em que esteve à frente do Mogi Mirim, justamente nos primórdios da carreira de treinador, representam até hoje a passagem mais longeva de Vadão por um clube – assim como também é o trabalho pelo qual é mais recordado. Nem mesmo a segunda posição da Série B do Brasileirão em 2009 (21 vitórias em 38 rodadas) e o vice no Paulistão de 2012, ambos com o Guarani, falam mais alto que os feitos com o Sapo.

Títulos, que são o que afinal de contas carimbam o currículo de qualquer um, foram poucos de lá para cá. Um Torneio Rio-São Paulo pelo São Paulo aqui, um Paranaense pelo Furacão lá, um Catarinense pelo Criciúma acolá. É que a maior conquista mesmo, a que valeu para ele, talvez tenha sido interna: Vadão deixou a outrora tão entranhada timidez para trás.

– Quando me tornei treinador, aí que eu conheci realmente até onde eu podia chegar. Quando você é técnico de futebol ou, sei lá, provavelmente presidente da república, que são cargos de muita pressão, você começa a medir sua força, o seu equilíbrio, até onde você consegue chegar – acredita ele.

– O futebol foi o que me deu toda essa reviravolta, foi o que me deu essa descontração para sair aos poucos da timidez – completa.

Seleção brasileira: alívio antes do orgulho

Era a quarta vez que Vadão, agora um treinador de bagagem no auge dos 57 anos em 2014, comandava a Ponte Preta. O treino do dia encerrado, lá se foi nosso pomposo personagem encontrar Dona Ana num shopping que fica bem perto do Estádio Moisés Lucarelli, em Campinas. Eis que um telefonema interrompe o passeio: o presidente Vanderlei Pereira solicitava a presença do técnico no clube.

Vadão também comandou a Ponte Preta — Foto: AE/J.F.Diorio Vadão também comandou a Ponte Preta — Foto: AE/J.F.Diorio

Vadão também comandou a Ponte Preta — Foto: AE/J.F.Diorio

Apesar da campanha razoável no Paulistão e embora estivesse no meio do processo de montagem do elenco para a Série B do Brasileirão, Vadão foi tomado pela certeza de que seria demitido. Por qual outro motivo seria chamado para uma reunião, àquela hora da noite? “Fiquei assustado”, lembra. Avisou à filha Carol, jornalista e sua assessora, que logo deu início à redação do comunicado que teria que disparar à imprensa logo após a confirmação do desligamento.

Uma vez na sede do clube, Vanderlei não tardou a dar o aviso e foi direto ao assunto.

– Você precisa estar amanhã na Federação Paulista. Marín e Marco Polo querem falar com você.

E antes mesmo que Vadão pudesse perguntar o porquê, ele completou:

– Eles vão te convidar para ser treinador da seleção feminina.

Dadas as circunstâncias, o alívio por não ser demitido veio antes de qualquer coisa; seguido pelo orgulho por ser chamado para comandar uma seleção; e, logo depois, provavelmente afligimento ao se dar conta que sua experiência com futebol feminino resumia-se a um redondo e pujante zero. Mas foi exatamente o tamanho do desafio que fez Vadão aceitar.

A princípio, para que só então pudesse falar com as meninas sobre estratégias e formações táticas, estudou a fundo o futebol feminino e deparou-se com uma realidade no Brasil que ainda situa-se distante de países como Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra, por exemplo. Precisou aprender a lidar com a velocidade do jogo, os novos adversários e, sobretudo, as novas comandadas – que, ao menos uma vez por mês, diferente dos homens, aguçam a sensibilidade por motivos hormonais.

– Nós temos nossos períodos (risos) – conta a meia Andressinha, do Portland Thorns, sem conseguir disfarçar o sorriso. – Mas a gente dá muita risada. De vez em quando todas estão falantes, e ele (Vadão) fica meio doido com a gente.

Oswaldo voltou ao Guarani como técnico — Foto: Ailton Cruz / Gazeta de Alagoas Oswaldo voltou ao Guarani como técnico — Foto: Ailton Cruz / Gazeta de Alagoas

Oswaldo voltou ao Guarani como técnico — Foto: Ailton Cruz / Gazeta de Alagoas

As coisas para Vadão acabaram acontecendo num ritmo ligeiramente alucinante no comando da seleção brasileira feminina. Meses após assumir, foi ao Equador disputar a Copa América que dava vaga ao Mundial 2015 e à Olimpíada 2016. E levou o Brasil ao lugar mais alto do pódio pela sexta vez na história – a sétima viria em 2018, também sob seu comando.

Em 2015, Copa do Mundo no Canadá. A campanha foi impecável na primeira fase, com vitórias sobre Coreia do Sul, Costa Rica e Espanha. Classificou-se com folga. Só que Simon, aos 35 do segundo tempo, fez o gol que deu a vitória por 1 a 0 para a Austrália e encerrou o sonho do inédito Mundial ainda nas oitavas de final.

No entanto, nada parece ter sido mais doloroso na vida de Vadão do que os Jogos Olímpicos de 2016, no Brasil. Isso porque, na concepção do treinador, a derrota na Copa do Mundo foi circunstancial: num jogo de igual para igual, uma única bola brindou as australianas. Mas perder para a Suécia nos pênaltis nas semifinais das Olimpíadas, após o empate sem gols no tempo regulamentar, no Maracanã, diante de mais de 70 mil pessoas, tendo criado inúmeras chances durante o jogo inteiro, faz o treinador acreditar que a seleção merecia avançar à final.

O que faz os mais próximos ao treinador terem acostumado-se desde então, às vezes na resenha após o jantar ou durante o churrasco do fim de semana ao som de Nelson Gonçalves que ele tanto gosta, a vê-lo com o olhar distante, deixando escapar duas palavras. Somente duas:

– Aquele jogo…

Não dirige, mas adora bugigangas

62 anos, casado com Ana há 38, pai do Adriano (que lhe deu dois netos) e da Carol, Vadão é um homem sereno toda vida. Merece prêmio quem o faça sair do sério. Essa é justamente, senão a melhor, a característica mais marcante: levar paz em meio ao caos.

– Quando está todo mundo nervoso, estressado, ele está lá com aquela paz, tranquilo, pronto para resolver ou falar alguma coisa para acalmar – descreve a zagueira Mônica, anunciada faz poucos dias pelo Corinthians.

Nesse sentido, Vadão lembra o pai, que jamais precisou levantar a mão para educar os filhos. Para ele, o diálogo é o caminho que leva à solução, e o ser humano vem sempre antes do atleta: “Não consigo fazer diferente, me desvencilhar disso”. Por essas e outras, assume o genuíno papel de paizão para as jogadoras, que por vezes o procuram para pedir conselhos que transcendem a profissão.

Não dirige de forma alguma – e aí está outro exemplo que veio do pai. Em casa, Ana sempre foi a responsável por levar e trazer os filhos de carro porque Vadão tem pavor do volante. Não que haja trauma ou qualquer coisa do tipo. Simplesmente não é a dele. E se, por um acaso, surgir uma emergência…

– Eu chamo um táxi (risos) – conta, com a resposta na ponta da língua.

A aversão a carros, por sua vez, é inversamente proporcional ao fascínio por bugigangas. Tal qual uma criança, mas com o poder aquisitivo de um técnico de seleção brasileira, Vadão não pode topar com novidades. Os presentes adquiridos para família e entes queridos durante suas inúmeras viagens, portanto, vão da bala de jaca à garrafa térmica com formato de batom.

Não à toa, o xodó do apartamento da família em Campinas é uma lixeira com tampa de sensor automático – na qual, depois de tanto ouvir reclamações pela aquisição esdrúxula, ele proibiu que dispejassem lixo. “De vez em quando jogam um papelzinho, uma tampinha, mas não é qualquer coisa, não”, explica o treinador que, há pouco tempo, retornou aos trancos e barrancos do Canadá com uma volumosa churrasqueira americana na bagagem.

Brincadeiras à parte, o próximo destino está definido: França. A Copa do Mundo começa no dia 7 de junho, e os dias em que Vadão parece estar no mundo da lua, com o pensamento longe, têm sido cada vez mais frequentes. São duas as ocasiões que o fazem agir dessa maneira: quando está estressado (uma consequência das nove derrotas nos últimos nove jogos da seleção?) ou extremamente focado.

– Às vezes a gente fala com ele, ele não está nem ouvindo. Está na sua frente, olhando para você, mas não escuta nada do que você está falando – relata a filha Carol.

– Porque a cabeça está em outro lugar – completa ela com convicção. – Está no Mundial.

Por Ana Helena Goebbel e Tébaro Schmidt
Foto: Lucas Figueiredo / CBF